🏙️ Curitiba: Entre o Real e o Imaginário - Entrevista com Luciana do Rocio Mallon


Hoje, 29 de março, Curitiba PR celebra mais um ano de história. Mas, para além dos cartões-postais e do pinhão, existe uma cidade que desperta quando as luzes se apagam e o nevoeiro sobe: a Curitiba das sombras, dos sussurros e das lendas que atravessam gerações.

Para desvendar esses mistérios, conversamos hoje com uma verdadeira "guardiã da memória fantástica" paranaense. Luciana do Rocio Mallon não é apenas uma escritora e redatora de mão cheia; ela é uma artista que dança entre as palavras e o folclore urbano. Autora dos livros Lendas Curitibanas 1 e 2, Luciana resgatou figuras que já fazem parte do nosso DNA cultural, como a Loira Fantasma, o Cavalo Babão e a Noiva do Belvedere.

Formada em Letras pela UFPR, bailarina e influenciadora, Luciana traz em seu trabalho um olhar detalhista que transforma "causos" populares em literatura de alta qualidade. Nesta entrevista exclusiva, ela nos leva em um passeio pelos segredos da capital, fala sobre o desafio de manter viva a tradição oral na era digital e nos mostra que, em Curitiba, toda esquina esconde uma história pronta para ser contada.

Prepare o seu café, sinta o clima curitibano e mergulhe conosco nessa jornada literária!


Biografia da Autora

Luciana do Rocio Mallon é escritora, redatora e uma das principais vozes do folclore urbano paranaense. Graduada em Letras (UFPR), dedicou décadas ao resgate da memória imaterial de Curitiba, sendo autora das obras Lendas Curitibanas 1 e 2. Sua trajetória literária é marcada por prêmios de prestígio, como o Prêmio SESC de Literatura Infantil (2017), e participações em diversas antologias de fantasia e contos populares. Além das letras, Luciana expressa sua arte como bailarina e influenciadora cultural, unindo tradição e modernidade em tudo o que faz.



Entrevista com a Escritora


[Blog Pense Repense]: Luciana, Curitiba completa mais um ano no dia 29 de março. Para você, que respira a cidade, qual é a "alma" de Curitiba que as pessoas não enxergam à primeira vista, mas que está presente nas suas histórias?

[Luciana do Rocio]: Curitiba é uma cidade misteriosa por natureza, primeiro por causa de seu clima frio que impera boa parte do ano e em segundo porque o escritor que foi e sempre será o símbolo eterno da cidade, Dalton Trevisan, era repleto de mistérios enquanto era vivo. Aliás ele foi um escritor — lenda, por sair mais à noite ganhou o apelido de vampiro.

A personalidade do curitibano tem fama de ser antipática por pessoas de outras cidades. Mas, na verdade, é uma timidez inicial e uma desconfiança, que de uma certa maneira, traz segurança e proteção. Porém o curitibano tende a se soltar mais à medida que vai conhecendo a pessoa ou vivendo situações novas. Assim, de uma certa maneira, Curitiba tem uma frieza misteriosa que acolhe.

O curitibano também tem uma ligação mística com a natureza. Pois, em Curitiba, há muitos parques e neles há muitas lendas como: Jacaré do Parque Barigui, Iara do Lago Azul do Umbará, Pavão Prateado do Passeio Público, Girada Pandinha do Zoológico do Boqueirão, etc. Outros pontos interessantes são as arquiteturas dos prédios centrais que possuem sempre causos misteriosos para contar.

[Blog Pense Repense]: Seus livros Lendas Curitibanas 1 e 2 resgatam figuras icônicas como a Loira Fantasma e o Cavalo Babão. Como nasceu esse seu desejo de ser a guardiã dos mistérios da capital?

[Luciana do Rocio]: Quando eu era criança, com menos de 5 anos de idade, não gostava quando minha mãe contava contos infantis como: Cinderela, Branca de Neve ou Bela Adormecida, porque as princesas sempre se casavam com príncipes no final. Assim, eu preferia quando minha mãe ou outras mulheres mais velhas contavam histórias como: A Loira Fantasma, Maria Bueno e a Noiva do Belvedere. Pois essas personagens eram bem mais fortes e impactantes do que as princesas. Então sempre quando avistava uma mulher mais velha, eu perguntava:

 Você conhece alguma lenda?

Dessa forma comecei a colecionar lendas na minha cabeça. Já, aos 6 anos de idade, quando fui alfabetizada passei a anotar as lendas que me contavam. O tempo passou e na minha juventude fui trabalhar em lojas como vendedora e auxiliar de crediário, onde eu entrevistava as clientes para liberar o carnê de compras. Mas na parte, quando elas precisavam falar sobre os bairros onde moravam, eu sempre perguntava para as clientes:

— No seu bairro tem alguma lenda?
— Qual a origem do seu bairro?
— Tem alguma casa mal assombrada na sua rua?

As freguesas sempre contavam as lendas que conheciam e eu anotava. No final do ano 2001, eu precisei fazer curso de Informática Básica, porque o mercado de trabalho exigiu. Lá a professora descobriu que eu gostava de escrever lendas. Assim ela me aconselhou a colocar meus textos num blog que podia ser no Blogspot ou no Usina de Letras. Deste jeito, consegui um espaço gratuito no site Usina de Letras

Em 2004, surgiu uma rede social chamada Orkut e comecei a escrever lá também. Por volta de 2009, o Orkut fechou e passei a escrever no Facebook. Desta maneira, em 2012, o jornalista Hélio Puglielli me aconselhou a publicar um livro. Mas eu confessei que não tinha condições financeiras para contratar os serviços de uma editora. Porém este jornalista afirmou que a Editora chamada Instituto Memória, do Anthony Leahy, publicava livros de forma gratuita se o ator tivesse talento. Entrei em contato com este editor e em novembro de 2013 o livro, Lendas Curitibanas 1, foi publicado. Em 2019, foi publicado o livro Lendas Curitibanas 2.

[Blog Pense Repense]: Você é formada em Letras e trabalha como redatora. Como a sua técnica profissional ajuda a transformar um "causo" contado de boca em boca em uma narrativa literária que prende o leitor do início ao fim? 

[Luciana do Rocio]: Antes de entrar na faculdade, eu já escrevia lendas. Então, desde criança, eu sempre usei a seguinte técnica: primeiro escuto um causo que pode ser na rua, no ônibus, no trabalho ou na Internet. Depois entrevisto pessoas que podem conhecer essas lendas. Após isso descarto as contradições. No final, coloco tudo no papel e dou um toque com minha imaginação.

[Blog Pense Repense]: Muitas das suas lendas envolvem pontos turísticos reais (Belvedere, Casa Hoffman, Praça da Ucrânia). Você acredita que conhecer as lendas muda a forma como o curitibano caminha pela cidade? 

[Luciana do Rocio]: Sim, as lendas esclarecem muitas coisas. Pois toda a lenda tem um fundo de verdade. Por exemplo: na Lenda do Fantasma da Grávida da Praça da Ucrânia, eu pesquisei e realmente uma gestante levou uma bala perdida nesse local em 2004 numa feira que acontecia lá. 

A Casa Hoffman foi realmente um espaço onde mulheres aprendiam Dança e nas entrevistas descobri que uma bailarina, com Câncer, desmaiou lá na vida real. 

Pesquisando nos microfilmes de notícias antigas, descobri que realmente uma noiva se jogou do Belvedere no começo do século vinte. 

Quando você descobre uma lenda que aconteceu num ponto turístico e vai lá depois, a sua pessoa, com certeza, enxerga o lugar com muito mais profundidade.

[Blog Pense Repense]: Além de escritora, você é bailarina e coreógrafa. Existe uma "dança" entre as palavras e o movimento? Como essas duas artes se misturam no seu processo criativo

[Luciana do Rocio]: Sim, eu trabalho com uma técnica chamada Dança-Poesia onde a bailarina faz gestos representando objetos, pessoas e sentimentos existentes dentro da letra da Música. 

Por exemplo, se na música o cantor fala sobre o mar, então a bailarina imita as ondas do mar com os braços e o nadar das sereias mexendo a cintura. Por isso, eu faço uma performance gratuita chamada: Lendas, Repentes e Danças, onde eu conto causos, faço poemas na hora com as palavras que as pessoas pedem e bailo coreografias diversas. 

Inclusive estou com um projeto chamado: Resgatando as Danças de Curitiba de Séculos Atrás. Pois muitas pessoas acham que Curitiba não tem uma Dança tradicional. Mas, nas pesquisas, descobri que essa cidade tem várias danças típicas daqui mesmo, porém que se apagaram com o tempo.

Exemplos: Dança das Lavadeiras do Rio Atuba, Dança das Leiteiras do Bacacheri, Dança Quirera das Chácaras da Vila de Nossa Senhora da Luz e Curitibano, uma Dança que se parece muito com o Flamenco espanhol, mas que, infelizmente, o resto do Brasil confunde como sendo dança gaúcha.

Porém Curitibano é uma Dança tipicamente de Curitiba que surgiu no século dezenove por influência dos imigrantes espanhóis e árabes, que se perdeu no tempo, mas que estou tentando resgatar. Danças são linguagens que refletem sentimentos e merecem ser pesquisadas.

[Blog Pense Repense]: No seu currículo, você menciona o "resgate de lendas passadas de geração em geração". Qual foi a história mais difícil de pesquisar ou aquela que mais te surpreendeu pelo realismo dos relatos?

[Luciana do Rocio]: As lendas que envolvem crimes reais são as mais difíceis de pesquisar. Pois tento contato com os parentes das vítimas com o objetivo de fazer uma pesquisa séria, mas muitas vezes esses familiares, geralmente, acabam me xingando e já até recebi ameaças. Então prefiro não citar os títulos dessas lendas, que foram as mais difíceis aqui, para não ter confusão com os parentes das vítimas de crimes reais que inspiraram essas mesmas lendas.


Falando em escrita, confira também meu
Guia para Escritores Iniciantes


[Blog Pense Repense]: Você venceu o Prêmio SESC de Literatura Infantil. Qual o desafio de contar o "lado sombrio" ou misterioso de Curitiba para as crianças sem perder o encantamento e a ludicidade?

[Luciana do Rocio]: Curitiba tem muitas lendas que envolvem animais e isso chama muita a atenção de crianças, exemplos: Lenda do Gato Bóris, Lenda da Mula Milagrosa da Igreja dos Passarinhos, Lenda do Grimpeiro, Lenda do Gato Kiko, Lenda da Girafa Pandinha do Zoológico do Boqueirão, etc. O público infantil se interessa muito por causos misteriosos que envolvem bichos.

Assim, em concursos de contos infantis, eu sempre falo de vários animais encantados que vivem na cidade. No concurso do SESC, o título do meu conto vencedor, em 2017, foi: O Dia Em Que as Lendas do Paraná Foram Sequestradas, onde uma bruxa aprisiona personagens das principais lendas da capital paranaense.

[Blog Pense Repense]: Se você pudesse escolher um personagem das suas lendas para dar os parabéns a Curitiba no dia 29 de março, quem seria e o que ele diria para a cidade?

[Luciana do Rocio]: Eu escolheria Santa Popular Maria Bueno, porque ela foi vítima de feminicídio, um crime que até hoje mata centenas de mulheres no Brasil. Então ela merece ser lembrada assim como as mulheres vítimas desse tipo de crime. Eu diria:

— Espero que chegue o dia que nenhum homem mate mais nenhuma mulher nesse planeta.

[Blog Pense Repense]: Para quem quer começar a escrever sobre sua própria cidade ou cultura local, qual é o seu conselho de "mestre" para transformar o cotidiano em literatura fantástica?

[Luciana do Rocio]: Primeiro a pessoa precisa gostar de Lendas Urbanas e causos sobrenaturais. Depois, o futuro escritor tem que ser apto para conversar e entrevistar pessoas no mundo real, pois no mundo virtual podem ocorrer alguns enganos. 

Aliás, é através das entrevistas presenciais que observamos detalhes fundamentais como: expressão facial e gestos corporais. O futuro escritor também precisa fazer anotações, em papel, de tudo que encontrar de interessante sobre o assunto. Após isso ele deve saber filtrar as informações e riscar as contradições. 

Ao escrever o texto final, o futuro escritor não deve buscar ajuda na Inteligência Artificial porque, nesses casos, ela dá informações erradas e pode estragar o texto. 

Finalmente, tem o mais importante: não ligar para críticas negativas ou comentários maldosos.


Lendas Curitibanas

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Comentários

  1. Oi Aliii, amei a entrevista, e amei ainda mais por ela ser e falar da nossa linda Curitiba 😍 Sou curitibana, mas já tem alguns anos que moro na região metropolitana. A nossa cidade da garoa merece essa visibilidade e vc fez isso com maestria. Parabéns pela entrevista Alii e Luciana 🤗 Sucesso 🙏🏽

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