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05 abril 2014

[Contos] O Tesouro [parte 1]

Faz pouco tempo que me mudei para esta pequena cidade. Trouxe na bagagem muita dor, angustia e anseio por uma vida diferente. Fui do exercito por 10 anos, terceiro sargento. Vi muita gente ser morta na minha frente, alguns tinham uma extensa ficha criminal, outros nem tinham passagem pela polícia. Depois de ter participado de uma grande emboscada que foi bem sucedida, eu me aposentei. Mas não parou por ai. Eu sempre gostei de artigos antigos, adorava ajudar meu avô com a loja dele e foi por isso que fiz faculdade de artes e me especializei na área. Caço relíquias e as restauro, para depois vender ou decorar minha loja.


Meu avô morreu faz dois anos, depois de ter terminado a faculdade, e herdar sozinho a loja de artigos antigos do meu avô, já que tinha perdido meus pais em um acidente, então eu percebi que era a coisa que eu mais gostava de se fazer. Tornava-me mais próximo de meu avô de algum jeito. Mas não me mudei definitivo, vim para procurar um grande tesouro. A casa na qual eu aluguei era de 2 andares, ficava no início da rua sem saída. Da sacada percebi uma casa antiga no fim da rua, era antiga tipo mini castelo, de modelo espanhol.


O jardim estava mal cuidado e a pintura castigada pelo tempo. As vidraças sujas e embaçadas. De longe se via que estava abandonada a algum tempo. Fui para a cozinha preparar um café, eu tinha muita coisa a fazer como pesquisar sobre os artefatos que eu precisava e os papéis para a compra ou para doação. Poucas pessoas sabem o valor de um artefato antigo. Muitos dos artefatos que consegui, ganhei, pois os donos já haviam falecido e seus herdeiros desconheciam seu valor tanto material quanto o valor sentimental.

Mas uma coisa eu aprendi com o meu avô, a "limpar" o tal objeto de sentimentos, valor e ganância, principalmente. De uma coisa eu sei: se tem muita gente interessada em tal o objeto é porque ele vale muito ou tem algo de valor nele (dentro). É fazendo essa "benção", e eu e seu futuro comprador podemos ficar tranquilos.

Como eu sou um cara organizado, eu contato a pessoa responsável pela venda e conto que achei algo de valor junto com o tal objeto. Algumas vezes não sei por que, talvez por picuinhas na família, eles ignoram o item e acabo ganhando de presente.

Os documentos estão prontos, a casa organizada e agora vou dormir, pois amanha será um grande dia. Você deve estar se perguntando por que aluguei uma casa tão grande para um tempo tão curto. Talvez seja porque eu não passarei um tempo tão curto aqui. Desde que meu avô morreu não tiro férias. Então vou aproveitar que estou nessa cidade pequena e já vou descansar e colocar em ordem o que deixei para depois ou que ainda não terminei. Como um livro sobre as antiguidades que estou escrevendo, conto nele tudo o que sei sobre os artigos que tenho em minha loja, já está em 354 páginas. Acordei cedo, ainda estava sonolento quando desci as escadas e fui à cozinha preparar meu café. Depois que terminei de comer me senti mais revigorado e acordado também.

Sai para a caçada do meu grande tesouro. Cheguei em frente a bela mansão de traços modernos. Um jardim enorme, até me perguntei se não era um sonho uma casa, digo, uma mansão tão linda naquela pequena e pacata cidade. Um homem fardado veio falar comigo antes que eu pudesse tocar a campainha. Apresentei-me e os enormes portões de barras de ferro se abriram e enquanto o manobrista guardava meu carro, fui direcionado à parte lateral da mansão onde a dona pela qual entrei em contato por telefone dias antes.

-Bom dia Senhor Wenz- disse ela com uma voz doce.
-Bom dia senhorita Conrado- respondi cordialmente.
- Junte-se a mim na mesa, se preferir, que assim que eu terminar meu café então falaremos dos artefatos. - Disse ela graciosamente.
-Tudo bem- respondi e completei: Já tomei meu café, mas quem não resistiria a este convite?
-Muita cordialidade sua senhor Wenz.
-Disponha.

Ela era linda de longe se percebia que sua beleza era natural. Cabelos negros como a noite e cacheado nas pontas, sua pele branca como a neve, seus olhos verdes como a esmeralda, sua fala era calma e sua voz doce e meiga. Um tanto misteriosa, mas perfeita!

Conversamos um pouco sobre o destino dos artefatos, sobre os documentos que deveria assinar e sob quais circunstancias eu deveria retornar meu contato após o fechamento do negocio. Ela me ouviu atentamente, tanto que algumas vezes me perdi em seu olhar inocente, e troquei algumas palavras. Confesso que achei ter queimado toda minha credibilidade neste momento, mas não. Nenhum herdeiro jamais ficou tão interessado no que eu falava quanto ela.

Depois que assinamos os documentos direcionei-a as copias dela e guardei as minhas originais e enfim pude ver e pegar minha relíquia. Para muitos é só uma bugiganga velha, mas para mim e meu avô era uma joia rara, e ainda é, que necessita de reparos, assim como um pássaro quando vem a nós machucado, merece cuidado para poder continuar seu caminho na história. O artefato era algumas medalhas e broches ganhados em guerras e batalhas vencidas. Estavam velhas e enferrujadas, mereciam cuidados e um pouco de tinta. Depois que restaurá-los colocarei em uma cúpula de vidro por ordem de ano.

-A quem pertencia? Posso saber?
-Meu pai, Coronel Conrado.
-Sério?
-Sim, o conhece?
-Claro que sim, ele foi como um pai para mim nos tempos de exército!- respondi entusiasmado.
-Você é o Stifler Wenz?
-Sim, esse é meu nome. Por quê?
-Meu pai me falou muito de você. Estive te procurando desde a morte dele, há um ano.
-É ele era como um pai para mim. Bom, depois q eu sai do exercito eu fui morar com meu avô, e foi onde herdei loja de artigos antigos.
-Hum, então, tem algo que ele queria que você ficasse. Vou buscar.

Ela saiu pela porta do escritório e voltou com um pequeno baú. Com uma chave de ouro ela abriu o baú e o trouxe em minha direção. Eram mais de 40 broxes aproximadamente. Todos novos e bem cuidados. Em um deles tinha o nome dele: Coronel Conrado.

-Obrigada pelo grandioso presente, mas eu nunca iria te reconhecer, você era muito pequena quando te conheci.
-É você mudou muito também, mas eu não era tão pequena assim- disse ela em tom inconformado- eu tinha 14 anos.
-E eu já tinha 20.

Rimos juntos. Ela realmente se sentiu confortável na minha companhia, tanto que passamos horas juntos. Ela me mostrou cada canto daquele pequeno castelo como, por exemplo, as coleções particulares do coronel, chegou a hora do almoço e eu ainda estava lá. E antes que eu pudesse abrir a boca para me despedir ela me puxou pelo braço pelos corredores me dizendo que eu não tinha escolha. Confesso que fiquei com medo, eu falei que ela era misteriosa. Chegamos a uma enorme porta dupla, a sala de jantar. Então a primeira vez que almoço com uma garota desde... Muito tempo!

Terminamos de almoçar, a agradeci, peguei minhas relíquias e me dirigi à porta principal para pegar meu carro. Ela estava radiante e da porta acenou para mim, eu já estava dentro do carro. Dirigi-me ao cartório, precisava autenticar os papéis e depois tiraria o dia de folga. Folga entre aspas, pois tenho que adicionar os broches ao meu livro, e mais algumas coisas que estavam faltando.

Cheguei em casa perto das 18 horas da tarde, estava muito cansado, mas o que eu vi era real: as luzes do velho casarão estavam acesas, não todas, mas do quarto superior e da sala do primeiro andar. Sacudi minha cabeça, esfreguei os olhos e olhei para as janelas novamente e estavam apagadas. Espero que fosse fruto da minha imaginação, já que essa humilde casa estava abandonada a algum tempo, segundo os vizinhos que andei conversando.

Andei especulando com alguns vizinhos a respeito daquela mansão sinistra, mas a maioria não me deu informações. Apenas um me deu a resposta que eu queria, a senhorita Conrado. Pertencia a uma família esquisita, vieram para a cidade a alguns anos. Houve alguma coisa naquela mansão que eles nunca mais saíram de lá. Não teve mudança saindo da mansão, então não se pode dizer que saíram de lá. O mais curioso é que algumas luzes são acesas durante a noite, não todas. Apenas quartas e sextas feiras.

Tomei um banho quente e fui preparar algo para comer, já era perto das dez da noite, quando ouço um barulho vindo do quintal: senhorita Conrado.

-Você esta bem? Como posso te ajudar?- Perguntei a ela assustado com suas vestes, ela estava com uma roupa diferente da roupa que a vi mais cedo, estava com calça legging preta, um moletom preto com capuz. Estava rasgado, muito rasgado.
-Desculpe me chegar a essa hora na sua casa, eu sei que mal nos conhecemos, mas eu preciso ficar aqui essa noite.
-Por mim não tem problema, essa casa é grande, não quanto a sua, mas é.
-Não é pela casa, mas... Não posso te dizer agora.
-E porque não?
-Quando chegar a hora saberás.

Isso foi estranhamente sinistro. Arrumei roupas para ela vestir, aumentei o “caldo” da minha sopa, pois começou a chover e estava ficando frio. Arrumo a cama para ela dormir e a conduzo ate seu aconchego.

-Por favor, fique comigo até eu pegar no sono?

Pergunto-me "Você é homem ou não?" e respondi: - Eu fico sim.
Fiquei sentado ao seu lado, ela agarrou minhas mãos e em menos de 10 minutos ela cai em sono profundo. Vou para meu quarto, tomo um banho quente para relaxar meus músculos e dormir sossegado. Perto das 3 horas da madrugada acordo com um vento geladíssimo passando pelo quarto, e quando me deparo com a senhorita Conrado na minha sacada estremeço até o ultimo fio de cabelo do meu corpo. Ela está com a roupa que a emprestei para dormir e esta com um binóculo nas mãos olhando em direção à mansão sinistra.

-Você está bem?- pergunto em um fio de voz.
-Estou sim, mas é só daqui que tenho uma visão boa daquela mansão- ela vira-se para mim- Incomoda-se?
-De jeito algum, apenas me incomoda você a essas horas de pijama em meu quarto enquanto estou apenas... Pelado! Desculpe-me, mas já estou acostumado a ficar sozinho e nem me lembrei de que tinha visita, nem de trancar a porta...
-Mas você trancou a porta
-E como você...
-Eu precisava ter uma visão melhor da casa, e apenas tenho aqui, no seu quarto. Se vista e venha ver, estarei de costas.
-Ok. Vesti-me mais rápido que um trovão para ela não me ver, mas foi impossível, pois vi ela se virar rapidamente quando olhei em sua direção e ouvi risos abafados.
-Eu não vou te "comer", pode deixar- disse ela sarcasticamente.

Fui até a janela e peguei seu binóculo e o mirei em direção à mansão. Havia uma criatura de traços humanos, era uma sombra dele, ele fez algum sinal com as mãos e senhorita Conrado gemeu de dor e em seguida escorreu uma lágrima de seus olhos.

-Você sabe por que aconteceu isso?- Perguntei com receio de ouvir a resposta.
-Sim.
-E pode me contar? 
-Agora posso.

Ela então me contou sobre a família que ali morava. Era a mais rica da cidade, que até então tinha uma economia boa. Tinham enormes fazendas riquíssimas e um dos fazendeiros mais ricos da cidade tinha uma filha, ela não era linda nem nada, mas foi estuprada por um homem meio lobo. Ele fora enfeitiçado para roubar a vida dessa jovem pois um feiticeiro precisava do coração de uma jovem pura, mas por dó ele tiraria sua pureza para não dar certo essa façanha.

O fato seria consumado da melhor maneira, já que o jovem enfeitiçado era um namorado escondido da moça, perante sua família e ela mesma deu a ideia depois que o jovem a informou sobre o que eles deveriam fazer. Mas o feiticeiro descobre seus planos e chega até a casa do fazendeiro na hora, onde a família os pega no ato e começam atacá-lo onde ele se irrita e se transforma no animal que o feiticeiro falou, machucando a jovem moça.

O feiticeiro joga uma poção no homem-lobo e ele volta a ser apenas homem novamente. Os fazendeiros e sua esposa começam a acudir sua filha desmaiada e reconhecem o jovem que viram junto com sua filha. Tentam o proteger do feiticeiro.
Enquanto o pai da moça ajudava o homem, ela contava o que os planos do feiticeiro para sua mãe, que começa a expulsá-lo da fazenda, e começa a gritar para os seguranças.

-Mas o que é isso? Eu que ajudei a vocês... foi interrompido!
-Você trate de sair AGORA daqui, sei de seus planos, você iria matar minha filha para fazer uma... Macumba! Suma daqui!

Então o feiticeiro montou sua ultima macumba e foi embora. A macumba? Não poderia sair nunca mais na luz do sol, nunca mais sair de sua casa durante o dia, e é assim até hoje em dia.
Aline C. Duarte
Contos: O Tesouro 2013

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