[Contos de Julho] Minha Pequena Fantasma por Evan Klug

Olá leitores 

Para representar o mês de julho, a amizade, um conto especial do autor nacional Evan Klug. Desculpe o mal jeito, pois estou pelo celular e é meio desajeitoso postar por aqui. 

Minha Pequena Fantasma


   Desde que me lembro sempre chove. O céu enegrecido joga água aos baldes. Às vezes, acinzentado, apenas chuva fina, garoa, nunca para por completo. Pela janela, fico olhando os pingos marcando a água marrom das poças no quintal, na rua, até a esquina, onde o poste de luz ilumina parcialmente a calçada. Nenhuma carruagem, ninguém a pé. Essa maldita chuva faz com que todos fiquem onde estão. A peste levou muitos para o túmulo. Agora todos têm medo.

   Quando Suzane adoeceu pensei que não fosse sério. Algo que logo passaria, mas... a febre nunca baixou. Depois, foi nossa pequena Lisie, tão jovenzinha, tão inocente e tão frágil. Em apenas alguns dias a morte levou-a para junto da mãe. No outono eu era marido e pai, no inverno, eu já não era ninguém. Deixei os negócios, não atendi mais os clientes, não abri mais a loja. Fiquei aqui, neste velho casarão que pertenceu aos meus ancestrais, imaginando a vida que poderia ter vivido caso a peste não as tivesse tirado de mim.

   Os médicos nada podiam fazer a não ser... lamentar. As famílias choravam constantemente e os cortejos fúnebres enchiam as ruas, dia após dia, semana após semana. Muita gente partiu, alguns para outras cidades, muitos para o outro lado do véu. Trovões e relâmpagos tornaram-se meus únicos companheiros até... a chegada dela.

   No início pensei que fosse Lisie. Dei um pulo da cadeira de balanço, junto à janela, quando a vi pela primeira vez, rapidamente, passando pelo corredor, passos saltitantes e risos angelicais. Corri até a porta e não vi nada. Ela não estava mais lá. Saí pelo corredor, chamando:

   - Alguém aí?

   Nada. Nenhuma resposta.

   Alguns dias depois, enquanto olhava para fora, acompanhando os pingos da chuva nas poças d'água e ouvia o gotejar no telhado, vi seu reflexo na janela. Meu coração gelou. Levei um baita susto! Olhei para trás e ela lá estava, parada, olhando para mim. Tentei controlar o medo e estabelecer alguma comunicação. Assim que fui falar, ela correu. Tentei segui-la. A pequena garota de cachinhos castanhos desceu as escadas, atravessou o salão e correu para o quintal, deixando a porta aberta. Lá fora, uma chuva torrencial que despencou com muita força no momento que tentei sair da casa. Não a vi. Apenas o cortinado branco respingando em meu rosto. Minha pequena fantasma sumiu novamente.

   Ela não parecia querer assustar-me, acho que apenas... estava curiosa com minha presença.

   Decidi agir. Revirei todos os álbuns de fotos da família, coisas antigas dos meus pais, avós, bisavós. Tentei encontrar o rosto da menina que me assombrava. Quem ela poderia ser? Horas e mais horas procurando mas, ninguém que se assemelhe à esta pequena fantasma de olhos castanhos e curiosos. De qualquer forma, o vazio dentro de mim já não era tão grande.

   Um casarão imenso com todos os aposentos abandonados, exceto o meu. A parede manchada pela umidade, os tapetes envelhecidos, as teias de aranha no alto da parede, nada disso me entristece mais. Tenho companhia. Mesmo que seja... de uma pequena fantasma de vestido azul-claro.

   Passaram-se vários dias sem que eu a visse novamente, apenas ouvia os passos pelo corredor, vez ou outra uma voz, um riso infantil. Senti-me feliz novamente.

   Certa manhã, resolvi procurar por ela. Ansiava por encontrá-la novamente. Talvez conseguisse me comunicar desta vez. Não tinha medo. Procurei por toda parte mas, nem sequer um sinal da minha pequena fantasma de andar saltitante. Retorno a meu quarto afim de sentar em minha velha cadeira de balanço e olhar a chuva pela janela.

   Meu coração quase salta pela boca quando seus joviais olhinhos me fitam entrando pela porta. Sentada, balançando-se em minha cadeira, serenamente, ela olha para fora através da janela e depois torna a olhar para mim.

   - Queria saber o que o senhor tanto olha aqui de cima.

   Depois de gaguejar, balbucio minhas primeiras palavras.

   - Não há nada a ser visto, apenas chuva e... lama.

   - Mas está um dia bonito lá fora.

   Não quero contrariar ou irritar a pequena fantasma, começo a achar que toda a minha alegria em tê-la por perto começa a se transformar em tensão, afinal se trata de um fantasma, um espírito, uma alma penada, qualquer coisa assim.

   - Ainda vejo muita chuva lá fora. – Insisto, bem devagar.

   Ela muda de assunto.

   - Por que você está aqui?

   - Eu moro aqui, há muito tempo.

   - Você não se importa de eu morar aqui também?

   - Não, claro que não. Há muito tempo que não há crianças nesta casa.

   Ela olha pensativa pela janela. Depois retorna seu olhar para mim.

   - Meu nome é Angeline.

   - Muito prazer Angeline, a senhorita é muito bonita. Meu nome é Armand.

   - Você fala um pouco engraçado.

   - Deve ser porque somos de épocas diferentes. Você sabe em que ano nasceu?

   - Não sei. Só sei que tenho sete anos.

   - Você deve ter sete anos há muito tempo não é mesmo?

   - Acho que sim, nem lembro quando foi meu último aniversário.

   Passa pela minha cabeça "Provavelmente ela nem sabe que está morta" mas, como ela tem sido amistosa, fico bem mais tranquilo em continuar a conversa. Antes que eu diga algo, ela continua:

   - Um dia ouvi papai conversando com minha mãe, falavam baixinho e achavam que eu estivesse dormindo.

   - E o que eles diziam?

   - Falavam sobre uma casa onde alguém morreu há muito tempo atrás. Herança de um tio-avô, que não morava na casa. Estava abandonada. Dizem que é assombrada.

   - Assombrada?

   - Sim. Dizem que ninguém mora aqui porque ouvem-se choros de um homem, só que a casa está vazia. Meu pai não acredita nessas coisas, diz que é bobagem. Por isto viemos morar aqui.

   - Vieram morar aqui?

   - Sim, eu e meus pais.

   - Angeline, você sabe em que ano estamos?

   - 1986, é o que eu sempre escrevo na escola.

   - Não minha querida, estamos em 1874.

   Ela balança a cabeça, parece estar desaprovando-me.

   - Eu sei quem você é. – Ela diz.

   - Você sabe? E quem eu sou?

   - Você é o homem que chora, que morreu de tristeza depois que sua mulher e sua filha morreram.
   As imagens há muito enterradas, saltam agora em minha mente. Os meses deitado na cama, dias e mais dias sem comer, sem beber, apenas esperando a morte chegar. A dor tomou conta de todo o meu corpo, desnutrido e desidratado. A moléstia da perda era física e mental e castigava-me mas, eu não tinha vontade de desfazer-me dela. Ansiava pelo dia que encontraria minha esposa e filha novamente, os amores da minha vida.

   Um dia, a dor simplesmente me deixou, levantei da cama com minha melancolia e meu luto e andei pela casa, sentei-me em minha cadeira de balanço e olhei para fora, para uma chuva que nunca acabou, agora eu carregava apenas a dor da alma.

   A menina me encara, tentando imaginar o que se passa em minha cabeça.

   - Suzane tinha vinte e seis anos quando foi acometida pela doença e Lisie, tinha quase a sua idade.

   - Eu sinto muito.

   - Eu também. Todos os dias. Um após o outro.

   - Eu também conheço alguém que morreu.

   - Quem?

   - Meu avô. Eu gostava dele.

   Ela faz uma pausa, depois continua:

   - Ele tinha um cheiro estranho mas, ele era engraçado.

   - Você o viu depois que... ele faleceu?

   - Não. Meus pais dizem que ele foi para o céu.

   - Está certo. Deve ter ido mesmo.

   - Por que você ainda está aqui? Não devia estar com elas?

   - Eu... eu não sei.

   - Você é um fantasma, então?

   - Acho que sim. E você é uma menina muito esperta para sua idade.

   - Todos dizem isso. Você não vai me assustar, não é mesmo?

   - Não. Por que eu faria isso?

   - Não sei. Você assustou os outros com sua tristeza.

   - Isto vai mudar agora. Meus choros e lamentos não vão mais assustar ninguém.

 - Você vai ficar aqui? Ou vai embora agora que sabe que é um fantasma? – Ela pergunta inocentemente.

   Eu sento na beira da cama, bem próximo da cadeira de balanço onde ela está.

   - Eu não sei para onde ir, então... até que alguém venha me chamar ou... um túnel de luz se abra na minha frente... posso ficar aqui?

   - Claro. E... podemos ser amigos?

   - Claro. Mas com uma condição. Não diga nada a seus pais sobre mim. Este será o nosso segredo. Está bem?

   - Sim. Nosso segredo.

   Ela estende a mão com o mindinho em forma de gancho.

   Não entendi, no momento. Mas utilizamos este "trato" muitas vezes depois.

***

   Passaram-se os dias e ela me contou sobre carros que andam sem cavalos, aviões, naves espaciais, filmes em uma caixa de madeira e muitas outras coisas que jamais entendi direito, embora ela se esforce e desenhe tudo para mim. Pela janela a chuva sempre caiu diante de meus olhos, mas ela descreve dias ensolarados, com pessoas andando pelas ruas, os tais carros. As paredes do casarão ainda são acinzentadas e manchadas pela umidade para mim mas, ela descreve reformas e paredes branquíssimas que não posso ver. Ela já cresceu pelo menos uns dois ou três centímetros desde que nos conhecemos. Somos melhores amigos.

   Por que estou aqui? Não sei dizer. Talvez nós dois precisássemos de um amigo. Quando a saudade aperta meu coração, fico em silêncio, olhando pela janela, sentado em minha velha cadeira de balanço. Ela simplesmente me abraça, enrola os dedinhos nos meus cabelos e não diz nada. Minha pequena fantasma sabe que um dia partirei para encontrar minha família e ela... aproveita cada minuto.




Mini biografia.

Evan Klug é curitibano, pai, marido e Gestor de Sistemas da Qualidade. Sua grande paixão foi sempre o entretenimento, desde muito jovem participou de peças teatrais e musicais e mais tarde além de atuar, também dirigiu e roteirizou outras peças teatrais para jovens e crianças pendendo sempre um pouco para o lado da comédia. Aventurou-se até mesmo pelo cinema amador, roteirizando, dirigindo e atuando. Participou da organização de eventos culturais, treinamentos e palestras para diferentes públicos. Fã de cinema, quadrinhos, esportes, rock n'roll e literatura entregou-se ao projeto de escrever seu primeiro livro, "OLHOS VERMELHOS: A Fera, o Diário e o Amuleto", concluído em 2015, publicado em formato e-book na Amazon e posteriormente disponibilizado gratuitamente para leitura no Wattpad, desta vez explorando um lado mais sombrio: o do suspense e terror. Atualmente está engajado em um novo projeto, um livro de Contos de Suspense e Terror provisoriamente intitulado "À Espreita".Alguns destes contos como O VELHO DE MORGANVILLE, MINHA PEQUENA FANTASMA, A PORTA TRANCADA e DANÇANDO NAS TREVAS, estão disponíveis para leitura nas plataformas Wattpad e Sweek.

Além de ter nascido e criado em Curitiba, residiu também nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Santa Catarina. Como o bom filho a casa torna, atualmente mora em Curitiba.

Em 2016 foi avaliado pela comissão técnica do prêmio Mark Wertz e recebeu as seguintes observações: "O autor tem escrita sólida, domina e bem caracteriza os personagens, dispõe de criatividade, sensibilidade, ideal para non-sense, com aquele toque de quem escreve com prazer, sabendo levar a mensagem. Conclusão: Você tem boa visão de primeira e terceira pessoas, sabe elaborar personagens, aliás, surpreendeu aos avaliadores... Sem dúvida, Impressiona como existem excelentes ficcionistas ainda não totalmente descobertos ao grande público, e o autor certamente é um deles."

Novos projetos ainda em fase de desenvolvimento, grande ideias sendo trabalhadas para se tornarem futuros livros.

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