[Contos de Natal] Feliz Tênis Velho! Por Eliel Mario Nunes

Olá Leitores! Feliz Natal!!

No dia do Natal o que não pode faltar é um conto que nos dê uma pequena lição de vida, e gratidão.

FELIZ TÊNIS VELHO!
Por Eliel Mario Nunes



 ― Aqui, meu fi, seu pisã macio. 

   Entrando na sala, como se fosse o Noel porta a dentro, colocou sobre a mesa aqueles dois objetos, enrolados muito semelhantemente a uma vara de padaria portuguesa. Seu Mauro, pai do Léo, enfim estava cumprindo sua promessa. Aquele senhorzinho de 60 anos carregando as marcas da lavoura, tinha um tom de voz maduro talhado com o jeito de quem não chegou a segurar uma caneta, mas sabia muito bem manejar a enxada. Desembrulhou sobre a mesa o pacote com dois sapatos, que embora novos, apresentavam formas tão antigas, sem outras cores que não fosse a preta, de borracha dura e aparentemente rudes, como tivessem sido feitos para guerra – o Kichute1. 

   O menino de 15 anos, filho único por parte do pai e caçula de uma família de 6 irmãos que se acomodavam sob as asas de uma mãe pacientemente sofredora. Recebeu seu pai e deu um salto com seu olhar de surpresa, voltando-se rapidamente para possuir aquele agrado. Ali estava o resultado de suas agonias e dias e dias de lembranças ao seu pai. Léo queria um tênis de marca para usar durante aqueles tempos festivos de fim de ano. Era dia 24 de dezembro, véspera de um dos dias mais movimentados do calendário ocidental, uma época de muitas festas entre nós, cristãos ou não, cujas celebrações misturavam devoção e diversão na mesma medida em que as comidas e bebidas se misturavam em nossos paladares.

   O pisã macio, como seu pai chamava o tênis, se apresentou ali como a grande decepção daqueles dias pra Léo. Com a mesma velocidade que ele desembrulhou o pacote, ao seus olhos extremamente horrível, ele o jogou de volta sobre a mesa voltando-se contrariado ao seu pai: 

 ― Que isso, meu pai? Eu não pedi esse negócio horrível não...

 ― Mas meu fí, eu só achei esse. E esse é bom...

 ― Bom nada, muito feio, horrível, ridículo... 

   Léo já estava chorando. Parecia raiva, ao mesmo tempo, vergonha antecipada. Seus pensamentos pareciam misturar a própria decepção com as possíveis reações de seus amigos quando o vissem com aquele calçado. 

  ― Eu não vou usar isto.... Não vou!

Como que querendo chamar a atenção de sua mãe, que entrara na sala, ele havia de novo arremessado o pacote sobre a mesa. Concordando com sua avaliação, sua mãe se dirigiu ao velho:

 ― Mas que isso? Seu filho não usa mais esses negócios. Hoje os meninos usam tênis bonitos, isso aí é ultrapassado. Léo tá triste com razão. Você é pão-duro mesmo.... Nem um calçado pro seu filho usar no Natal você é capaz de comprar?

 ― Vai pra merda! Ele tem que usar o que eu dou. Quem manda aqui sou eu!

 ― Por que você não vai embora, então, se não pode sustentar seu filho?

 ― Cala a boca, sai da minha frente. Eu saio dessa casa quando eu quiser...

   Naquele ponto, o tema já não era mais o que o menino iria usar em seus pés naqueles dias festivos de Natal; temas de brigas e discussões não resolvidas foram ressuscitando, somando-se ao problema. Léo chorava em um canto da varanda; ele ainda estava sentindo a manifestação mais forte de uma estranha sensação que nem ele mesmo sabia descrever direito – um misto de tristeza, raiva e pena de si mesmo. 

   A tristeza de Léo era a única coisa que parecia permanecer onde estava, naquele dia que se foi, passando rapidamente até que o fluxo de pessoas na rua em frente à sua casa parecia anunciar a chegada da noite e dos festejos natalinos pelo bairro.

 ― É, meu filho, seu pai nem saiu pra tentar trocar aquele troço por algo que te agradasse... 

   Sem esperar que sua mãe concluísse, parecia que algo tinha caído na cabeça pensativa de Léo, que correu dali, indo direto ao quarto de seu irmão, Vando, como quem tivesse sido chamado de lá por alguém lhe oferecendo alguma coisa. E após alguns segundos, volta ele, com o tênis de Vando nas mãos. Ele os tirou de debaixo da cama, eram bonitos, modernos, empoeirados e apesar de um pouco maiores, eles iriam para a festa com Léo naquela noite, cobrindo os seus pés e lhe trazendo uma profunda reflexão sobre aquilo tudo. 

 ― Este tênis é do Vando, né, meu filho? Mas ele está no Rio de Janeiro mesmo, ele não virá passar o final de ano conosco. Acho, que deve estar envolvido no trabalho artístico do Presépio em Copacabana. Mas tomara que pelo menos em janeiro ele venha, Léo, precisamos matar nossa saudade dele...

 ― Olha mãe ficou bonito em meu pé... 

   O sapatão era visivelmente maior que o pé do Léo, que com tanto esforço, parecia esconder o fato de que seus dedos estavam a centímetros longe do bico do sapato. 

 ― Tá grande pra você. Filho. Há não ser que..

   A mãe, apertou a ponta da frente do tênis e saiu, voltando rapidamente amassando algumas folhas de jornais.

 ― Vamos colocar isto aqui e ver como fica. Tira aí do pé.

Dona Maria, artesã das coisas de casa, com seu jeito materno de dar jeito em tudo, foi dando forma de sapato 29 àquele tênis 36. Empurrou para dentro o jornal amassado como sua obra de arte mais atual e deu o calçado ao filho que, empolgado com a possibilidade de usar o tênis de seu irmão mais admirado, foi colocando no pé, já não tão triste como estava há minutos.

 ― Tá bom, mãe. Tá legal agora. 

   Léo calçou e andava pra lá e pra cá, olhando pro pé, ao mesmo tempo em que captava no olhar da mãe a aprovação.

   O menino, meio bobo... a verdade é que se sentia por dentro meio parecido agora com seu irmão. Um artista plástico que se auto rotulava “livre pensador”, que ouvia às cinco da manhã Gal Costa e Júlio Iglesias, dentre outros, enquanto cuidava em ornamentar detalhadamente o jardim da frente da casa onde moravam. E aquele clima matinal era algo muito peculiar, tanto que naqueles dias Léo não havia entrado no quarto do seu irmão Vando para buscar um tênis, mas para se distrair com os discos e coisas, quinquilharias, dessas que só artesãos aglomeram. Aquele quarto exalava cheiro metálico de bijuterias misturado com tons mofados de baús e mapas de piratas – estar ali era como entrar em algum lugar ainda por ser descoberto. Na verdade, descobrir segredos ali dentro era um segredo que Léo guardara, tendo descoberto sozinho uma forma de entrar pelas janelas do quarto que ficava trancado por meses enquanto seu irmão estava bem longe em outro Estado, com a única chave. Estranho, mas resolver aquele incidente do tênis se tornou algo tão importante, que sua mãe nem o questionou sobre como que ele teve acesso ao quarto até então inacessível, mas Léo já havia inventado a desculpa de que as janelas estavam inesperadamente não travadas, encostadas e que ele “sem querer” as abriu ao encostar a mão nelas...

   Mas agora estava ali o cara, usando o tênis do seu irmão admirado, encarnando o papel, ele mesmo agora do mini livre pensador, menino que ficava ali naquele quarto ouvindo baixinho o toca discos Sharp e já sabia decifrar os tipos de abelhas presentes no texto da música “Mel” da Gal Costa... Que sabia coisas de seu irmão que só ele sabia – suas incursões explorativas naquele quarto lhe descortinaram coisas que ele guardaria pelo resto da vida. E agora, o cara do tênis diferente, que iria arrumar o restante da roupa e mais tarde à noite intercalar entre festas e festas, agora empolgado, animado e estranhamente feliz.

   Enfim na festa, Léo exibia seu tênis, mas por incrível que parecesse a ele, ninguém nem percebeu, a não ser ele mesmo, que ali no seu pé havia algo digno de tanta atenção.

 ― Feliz Natal! Feliz Natal... 

   Entre abraços e uma fala meio carregada de uma certa tristeza, Léo pulava de amigos a desconhecidos por onde passava naquela noite de 24 de dezembro... Até que percebeu que não estava feliz...

   “O que eu fiz com o meu pai?” um pensamento e a imagem do pai vieram juntos batendo contra sua consciência como uma combinação balística que fez desmoronar toda a sua expectativa de festa. 

   Seu olhar corria ao redor, como um louco acordando de um transe, procurando correlação entre o Natal, os tênis e a alegria que deveria estar estampada em seu rosto.

   “Pra que isto aqui? Qual o sentido de tudo isto? Estes tênis novos? Meu Deus como que a gente não percebe que isto tudo é tão sem sentido?”

   As lágrimas já estavam rolando fácil pelo seu rosto pensativo, e deram celeridade aos seus pés que corriam pelas ruas de volta para sua casa. Seus ouvidos estavam em suspense, nem sequer perceberam os gritos de seus amigos que passavam em sentido contrário, assustados com aquele quadro de fuga e choro. E os pensamentos de Léo escaneavam cada segundo daquele dia como um rascunho amassado indo ao lixo:

   “Que ridículo agora eu, essa roupa, esse tênis... e se eu perdesse o meu pai nessa noite? E se eu voltasse pra casa e não o achasse mais “

   Enquanto pensava em tudo isto, lembrou das dificuldades de seu pai, aposentado, sem saber ler e fazendo de tudo pra sustentar a família e seu relacionamento com dona Maria, sua mãe. Léo recordou-se das horas que seu pai dedicou a lhe educar, levando-o para a escola seguro pela mão, ensinando-o a atravessar a rua. Naquele momento, o menino sofrera de amadurecimento acelerado, e começou até a perceber tantas coisas que aconteciam não por vontade, mas devido às dificuldades do pai. E as lágrimas caíram ainda mais abundantes à medida em que se aproximava da própria casa.

 ― Pai! Paaaiiiiii! 

   Seus gritos já se iniciaram desde o portão, enquanto adentrava o jardim, como um desesperado à procura de algo essencial. E era de fato isto. 

   Arrancando dos pés aqueles tênis, enquanto corria na direção do pai, o menino se jogou nos braços mais aconchegantes de sua vida e soluçando, falou entrecortado e trêmulo:

 ― Me perdoa, pai! E obrigado pelo Kichute, realmente, eles são muito bons. 

   O pai, o abraçava em silêncio. A mãe achegando-se aos dois também os abraçou. Ali o menino lembrou-se de que ainda era aquele dia, e declarou:

 ― E Feliz Natal pra nós!

   Então, permaneceu descalço, até o dia amanhecer, quando acordou e colocou o pisã macio da hora, que seu pai lhe dera, e naquele feriado de 25 rolou o melhor futebolzinho de rua daqueles anos, junto com seus amigos.

Eliel Mario Nunes casado com Sandra Silva, pai de Elysandra Vitória e Ediney Costa, formado pela Universidade Estadual de Feira de Santana - Bahia, Professor Universitário e Professor do Ensino Médio, Pós-graduado em Educação e Sociedade e em Educação Especial. Músico, autor de mais de 100 músicas ainda não publicas. Pretende lançar em 2018 os livros “Manual da Vida”, uma reflexão sobre a vida e “Guardando as Sobras do Tempo”, uma antologia poética.



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